Electricidade - 2005/2006: Aumento do consumo cai para metade e renováveis duplicam produção

Fim da seca, dificuldades económicas e mudanças de comportamento explicam evolução que está ainda longe de metas fundamentais. Quercus faz análise preliminar dos dados de consumo de electricidade em 2006 e comparação com 2005.

 

A Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza recorreu aos dados disponibilizados pela Rede Eléctrica Nacional (REN) relativos à totalidade do ano de 2006 para efectuar uma análise pertinente, no que respeita à componente electricidade no contexto da política energética de Portugal. Um dos aspectos que merece destaque é a ligação da produção e consumo de electricidade com as emissões de gases de efeito de estufa que contribuem para as alterações climáticas, e o cumprimento por parte de Portugal do Protocolo de Quioto.

 

Portugal está sujeito a uma enorme variabilidade climática com incidência quer no recurso à produção de electricidade a partir de fontes renováveis (em particular à hídrica), quer nas necessidades de aquecimento e arrefecimento, nos sectores doméstico e de serviços, que condicionam o consumo. Estes factos levam a grandes variações nos dados analisados entre 2005 e 2006.

 

Entre os aspectos mais pertinentes da análise efectuada está o facto do consumo continuar a crescer, mas a um ritmo muito mais lento em 2006 que em 2005. Entre 2004 e 2005 o consumo de electricidade aumentou 5,4%, enquanto que entre 2005 e 2006 o aumento foi de 2,6%, menos de metade do verificado no período anterior. Apesar de se saber que alguns dados estavam sobreavaliados em termos de contabilização do consumo nas estatísticas apresentadas relativas a 2005, nomeadamente no que respeita à introdução na rede da produção de electricidade feita em unidades de co-geração, é um facto que esta queda é muito significativa.

 

No entender da Quercus, esta redução do consumo que é muito positiva para o futuro, no sentido da redução da nossa dependência externa em termos de combustíveis e de maior peso das energias renováveis, deve-se a um conjunto de factores que é difícil individualizar mas que se prendem com:

 

- maior conservação de energia no sector doméstico e nos serviços através de mudanças de comportamentos, motivada principalmente por razões e/ou dificuldades económicas que obrigam à poupança mas também por uma maior sensibilidade ambiental;  

 

- maior eficiência energética de novos equipamentos.

 

 

Os principais indicadores seleccionados / calculados pela Quercus

 

 

- O aumento do consumo de electricidade baixou de 5,4% em 2005 para 2,6% em 2006, ligeiramente menos de metade que no ano anterior

 

- A produção de electricidade por fontes renováveis passou de 15,9% em 2005 para 31,7% em 2006, praticamente duplicando o seu valor percentual.

 

- A energia eólica continua a ganhar peso na produção de electricidade, passando de 4,1 para 6,5%; o seu crescimento (em termos de produção) foi porém mais acelerado entre 2004-2005 (121%) do que entre 2005-2006 (67%); no contexto das energias renováveis, a energia eólica representou cerca de 21% da produção em 2006.

 

- As albufeiras encontravam-se no final de 2005 a 51% do seu armazenamento máximo, enquanto que no final de 2006 se atinge os 75%.

 

- A Quercus estima em 3 milhões de toneladas de dióxido de carbono a redução de emissões no sector eléctrico entre 2005 e 2006 (5% das emissões do ano base de 1990 em termos de Protocolo de Quioto) devido ao maior peso da componente de produção renovável de electricidade neste último ano.

 

- A central termoeléctrica de Sines deverá continuar a ser a empresa em Portugal com maior deficit de emissões de dióxido de carbono, ainda maior em 2006 que em 2005 – cerca de 850 mil toneladas acima da licença atribuída, o que significaria a preços actuais um sobrecusto de cerca de 4 milhões de euros (a tonelada de dióxido de carbono está actualmente a preços de mercado muito reduzidos – 4,9 Euros/tonelada)

 

 

Portugal com dificuldades em atingir meta de produção de electricidade por fontes renováveis (39% em 2010); Intensidade energética tem de decrescer mais; Aumento de preço da electricidade vai obrigar a maiores poupanças

 

Portugal em 2006 apresentou uma percentagem de electricidade produzida a partir de fontes renováveis na ordem dos 32%. Sabendo que grande parte (quase 80%) é proveniente da componente hídrica muito sujeita às variações climáticas e a restante da componente eólica, urge apostar na diversificação das fontes e na redução do consumo para que as energias renováveis ganhem maior peso. Aumentar em 7% a componente de electricidade a partir de fontes renováveis em 3 anos (até 2010) para dar cumprimento a uma Directiva Comunitária não vai ser fácil sem um esforço significativo de desburocratização no incentivo à produção de energias renováveis, nomeadamente a uma escala mais pequena e distribuída.

 

O facto do consumo de electricidade continuar crescer mais do que a produção de riqueza avaliada pelo Produto Interno Bruto em Portugal (2,6% de consumo de electricidade para uma variação positiva do PIB de aproximadamente 1,4%), significa que Portugal continua a agravar a sua intensidade energética ao nível da electricidade (precisamos de cada vez mais electricidade para produzir uma unidade de riqueza), sendo que o valor apresentado pelo nosso país é dos mais elevados a nível Europeu.

 

Em 2007 a Quercus continuará a dar prioridade ao seguimento das matérias na área da energia e em particular à sua relação com as alterações climáticas, nomeadamente no que respeita à sensibilização dos portugueses para ultrapassarem o desperdício, pouparem recursos e dinheiro, e simultaneamente verem melhorada a sua qualidade de vida através de um uso mais eficiente e mais sustentável com base em fontes renováveis de energia.

 

Lisboa, 4 de Janeiro de 2007

 

 

 

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