Contra uma guerra iminente: consequências humanas e ambientais de uma eventual guerra no Iraque

A Quercus - Associação Nacional de Conservação da Natureza solidariza-se com o movimento de opinião pública internacional que nos cinco continentes se tem erguido em protesto contra o desencadear iminente de uma agressão dos EUA contra o Iraque.

 

O que está em causa não é a escolha entre o regime de Bagdade e a actual administração Bush.

 

O que está em causa é o modelo de relações internacionais, e as consequências duradouras para as possibilidades da paz internacional e o equilíbrio dos ecossistemas à escala planetária, que o desencadear desta guerra, sem razão suficiente, nem o aval do Conselho de Segurança das Nações Unidas, poderá acarretar.

 

Os Estados Unidos da América (EUA) foram vítimas em 11 de Setembro de 2001 de uma violente agressão terrorista. Toda a comunidade internacional expressou nessa altura solidariedade e apoio ao povo americano, nomeadamente, no que diz respeito ao combate às redes do terrorismo internacional, associadas à Al Qaeda.

 

O problema, todavia, é que a interpretação efectuada pela administração Bush do conteúdo do combate ao terrorismo está a ultrapassar os limites do razoável. Mais importante do que isso: a administração Bush parece não compreender que a vitória sobre o terrorismo passa, igualmente, pela luta contra as suas causas, e não apenas pelo debelar dos seus sintomas.

 

Na perspectiva da Quercus a iminência desta guerra suscita os seguintes comentários críticos:

 

- Um ataque unilateral contra o Iraque seria uma violação grosseira tanto da Carta das Nações Unidas, de que os EUA foram o principal fundador, como do próprio artigo 6ª da Constituição Federal dos EUA.

 

- Tal agressão bélica, mesmo com um desfecho rápido, causaria perdas humanas e danos materiais muito difíceis de avaliar neste momento.

 

- Para além das consequências imediatas, uma tal agressão causaria danos de longo prazo no ambiente. À semelhança do que ocorreram nos conflitos desde 1991, seriam previsíveis consequências severas sobre a saúde pública, decorrente da contaminação da água, do solo, e da própria cadeia alimentar, com urânio empobrecido e outras substâncias tóxicas.

 

- A eventual destruição de numerosos poços de petróleo acarretaria consequências fortemente negativas, tanto do ponto de vista ecológico como económico.

 

- As reacções profundamente negativas da comunidade internacional, particularmente dos países islâmicos, à instalação de um protectorado dos EUA no Iraque, deixam antecipar um crescimento da tensão internacional, um incremento da corrida aos armamentos e uma expansão do recrutamento e das acções dos grupos terroristas.

 

Tendo em consideração a gravidade da situação, a Quercus, através de carta enviada ao Sr. Embaixador dos Estados Unidos da América em Portugal, apela para que o seu país:

 

- Circunscreva a sua acção sobre o Iraque ao quadro definido pelas diversas resoluções das Nações Unidas, nomeadamente, à questão do seu desarmamento, abstendo-se da mudança de regime através da via militar. Essa é uma tarefa que só ao povo do Iraque caberá realizar.

 

- Assuma as suas responsabilidades como país dominante na actual conjuntura internacional, dando o exemplo no combate às raízes do terrorismo, o que implica o reforço do multilateralismo, das Nações Unidas, e do respeito pela lei internacional.

 

- Lidere a luta internacional no combate à crise global do ambiente. A administração Bush deveria regressar ao Protocolo de Quioto, assim como a dezenas de outros regimes internacionais que aguardam o aval presidencial e a ratificação do Senado dos EUA. À escala mundial, terminar com a dependência dos combustíveis fósseis e do petróleo em particular, distorce as relações internacionais e gera conflitos desnecessários. A energia nuclear também não deve ser uma forma de substituição dos combustíveis fósseis, devendo os investimentos recair sobre as fontes renováveis.

 

- Seja fiel aos valores democráticos e á tradição de diálogo e tolerância que conferiram aos EUA o papel insubstituível, também no plano simbólico e cultural, que é o seu.

 

Direcção Nacional da Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza

 

Lisboa, 25 de Fevereiro de 2003

 

 

 

 

 

Implicações ambientais de acordo com o levantamento efectuado pelas organizações ecologistas Amigos da Terra Internacional e Greenpeace*:

 

Os danos possíveis para o ambiente, para as comunidades e acima de tudo para os cidadãos merece uma consideração prática e moral antes de qualquer decisão de avançar com a guerra. Uma guerra convencional pode conduzir à morte cerca de um quarto de milhão de pessoas, a maioria civis - a Guerra do Golfo levou à morte de 200 mil iraquianos.

 

A fome e a deslocalização de pessoas poderá matar outras 250 mil. Uma escalada da guerra envolvendo ataques químicos ou nucleares fará aumentar a mortalidade para quatro milhões de pessoas, para além da herança para as gerações futuras. De acordo com uma avaliação dos danos na Guerra do Golfo em 1991, ao se atingirem locais industriais e militares tais como fábricas de armamento ou refinarias, é gerada uma poluição química aguda no local envolvente.

 

Em 1991 as forças do Iraque destruíram setecentos poços de petróleo no Kuwait, sendo que em 1998 ainda existiam 10 milhões de metros cúbicos do solo contaminando. Dois quintos dos aquíferos de água potável do Kuwait continuam contaminados. Dez milhões de barris de petróleo afectaram mais de 1500 Km da costa do Golfo. Durante 9 meses os poços de petróleo estiveram a arder e a temperatura na zona desceu em média 10 graus centígrados. Estima-se que mil pessoas tenham morrido em consequência da poluição do ar.

 

Considerando que o Iraque tem as segundas maiores reservas de crude do mundo, o potencial para danos ambientais é enorme. A destruição das estações de tratamento de águas residuais do Kuwait resultaram na descarga de 50 mil metros cúbicos de água não tratada para a Baía do Kuwait. Estimam-se em milhares de hectares as áreas contaminadas no Iraque com urânio empobrecido na sequência da Guerra do Golfo, na sequência do uso de projécteis usando um total de 290 a 800 toneladas deste composto. 

 

O Iraque tem um conjunto de 33 importantes zonas húmidas à escala internacional onde vivem mais de sessenta espécies de animais ameaçados de extinção. *documentos completos em www.greenpeace.org/ e www.foe.co.uk/resource/briefings/war_iraq.pdf

 

 

 

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